Uma pesquisa recente revela um abismo entre a percepção das vítimas e a admissão dos agressores no Brasil. Segundo o levantamento, 54% das mulheres que já mantiveram relacionamentos com homens relatam ter sofrido algum tipo de violência. Em contrapartida, apenas 11% dos homens admitem ter praticado atos de agressão contra suas parceiras ou ex-companheiras.
Os dados fazem parte do estudo intitulado 20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira, realizado pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, com apoio da Uber. O levantamento, conduzido em abril de 2026 com 1,5 mil participantes em todo o país, busca mensurar a avaliação pública sobre a violência doméstica e familiar.
Descompasso entre relatos de violência e admissão de culpa
A diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, Vera Vieira, aponta que os índices de agressão permanecem elevados e apresentam tendência de crescimento. Em 2025, a Central de Atendimento à Mulher, conhecida como Ligue 180, registrou mais de 1 milhão de acionamentos, um aumento de 45% em relação ao ano anterior. Foram contabilizadas 155 mil denúncias, o que equivale a uma média de 425 registros diários.
O cenário reforça a persistência de agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais no ambiente doméstico. Mesmo duas décadas após a promulgação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), a proteção efetiva das vítimas ainda enfrenta barreiras estruturais significativas.
Barreiras no combate à violência doméstica
O estudo identificou que o medo da impunidade é o principal obstáculo para a formalização de denúncias, citado por 56% das mulheres. A morosidade do Poder Judiciário aparece como o segundo maior entrave, sendo apontada por 39% das entrevistadas. Além disso, 77% das brasileiras acreditam que o público masculino falha em identificar certas condutas como violentas.
A omissão masculina também é um ponto crítico: 82% das mulheres consideram que muitos homens permanecem inertes diante de agressões cometidas por outros homens. Entre as formas de abuso mais comuns, a violência psicológica lidera os relatos, atingindo 42% das mulheres, seguida pela violência física, com 25%.
Percepção social e eficácia da legislação
A diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, Maíra Saruê, ressalta que, embora a lei seja um instrumento essencial, ela não é suficiente para erradicar o problema de forma isolada. Enquanto 49% das mulheres afirmam conhecer bem o conteúdo da norma, 82% reconhecem que a legislação, por si só, não basta para conter a violência.
Apesar disso, o impacto da lei é sentido no cotidiano: 70% das mulheres percebem efeitos práticos da norma, e 54% declaram sentir-se mais seguras com a sua existência. A conscientização sobre os riscos aumentou, mas o conhecimento sobre aspectos específicos, como a proteção ao patrimônio, ainda é limitado, sendo compreendido por apenas 38% das entrevistadas.