Spray de pimenta para defesa pessoal feminina gera divergências entre especialistas Spray de pimenta para defesa pessoal feminina gera divergências entre especialistas

Spray de pimenta para defesa pessoal feminina gera divergências entre especialistas

Projeto de lei sobre o uso de spray de pimenta por mulheres gera debate sobre segurança, riscos operacionais e a necessidade de treinamento tático.

A recente aprovação de um projeto de lei que autoriza mulheres a partir dos 16 anos a adquirir, portar e utilizar o spray de pimenta como ferramenta de proteção individual provocou um intenso debate sobre a eficácia de medidas paliativas na segurança pública. A proposta, que aguarda análise e sanção do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, é vista por especialistas como uma solução que, embora busque ampliar a autonomia feminina, pode não substituir a necessidade de políticas estruturadas contra a violência.

Regras para aquisição e uso do spray de pimenta

A legislação proposta estabelece critérios rigorosos para o acesso ao dispositivo. Para realizar a compra em estabelecimentos credenciados, a cidadã deve apresentar identificação oficial com foto, comprovante de residência e certidão negativa de antecedentes criminais. O regulamento impõe limites técnicos, como a capacidade máxima de 50 ml por embalagem, e exige que os vendedores registrem as transações e emitam nota fiscal para garantir a rastreabilidade.

O uso do item é restrito a situações de legítima defesa contra investidas violentas, reais ou iminentes. Além disso, a lei determina que, em casos de furto, roubo ou extravio do dispositivo, a proprietária tem um prazo de até 72 horas para formalizar um boletim de ocorrência junto às autoridades competentes.

Riscos operacionais e a falsa sensação de segurança

Para Celeste Leite dos Santos, promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo e dirigente do Instituto Pró-Vítima, a medida pode ser classificada como um exemplo de “populismo penal”. A especialista alerta que a ausência de capacitação técnica torna o manuseio do gás um risco, podendo, em situações adversas, reverter a proteção contra a própria usuária.

Os desafios operacionais incluem fatores como a direção do vento, que pode desviar a substância para o rosto da vítima, e a proximidade excessiva com o agressor, que facilita o desarmamento. O uso em ambientes fechados também é desaconselhado, pois a dispersão do composto pode contaminar o local e atingir pessoas não envolvidas na ocorrência.

Implicações jurídicas e responsabilidade da vítima

Um dos pontos críticos apontados por Celeste Leite dos Santos é a possibilidade de responsabilização legal da mulher. O uso desproporcional do spray ou danos causados a terceiros podem resultar em sanções administrativas, com multas que variam entre um e dez salários mínimos, além de possíveis processos nas esferas cível e criminal por lesão corporal ou excesso na legítima defesa.

A promotora defende que a legislação deveria exigir um certificado de treinamento tático obrigatório para a liberação da compra. Atualmente, o texto aprovado apresenta uma lacuna ao não definir quais entidades seriam responsáveis por ministrar essa instrução técnica essencial para o uso seguro do equipamento.

Alternativas preventivas e o papel do Estado

Embora reconheça a utilidade do gás em situações específicas, a especialista enfatiza que a preservação da integridade física também depende de estratégias comportamentais. O desenvolvimento de uma postura vigilante, o uso de técnicas de defesa pessoal e a manutenção de uma linguagem corporal assertiva são apontados como inibidores naturais de abordagens criminosas.

O debate reflete, em última análise, a percepção de uma ineficiência crônica nas instituições públicas. Segundo a promotora, há uma falha sistêmica que perpassa os Três Poderes, desde a ausência de leis que garantam equidade até a falta de preparo do Judiciário no acolhimento de vítimas e a fragilidade do Executivo na implementação de políticas sociais duradouras. Mais informações podem ser consultadas na Agência Brasil.