O cenário corporativo brasileiro atravessa um período de intensa reestruturação financeira em 2026. Dados recentes apontam que o número de empresas em recuperação judicial atingiu patamares elevados, abrangendo uma diversidade de setores que inclui desde o varejo e a indústria até o agronegócio e o segmento de energia. O fenômeno reflete um momento de pressão sobre o caixa de grandes grupos, que buscam no Judiciário o fôlego necessário para reorganizar passivos vultosos.
Segundo o Monitor RGF-BizDoc, o recorte estrito contabilizava 6.382 empresas em recuperação judicial ao final de junho de 2026, representando um crescimento de 6,5% no primeiro semestre e de 22% em 12 meses. Quando observada a base completa do levantamento, o volume alcança 8.080 CNPJs, enquanto o estoque de companhias com falência decretada soma 2.808 registros. É fundamental notar que essas métricas possuem metodologias distintas e não devem ser somadas, servindo como indicadores complementares da saúde financeira das organizações.
Crescimento de processos e a dinâmica das falências
A análise da Serasa Experian reforça a tendência de alta nos pedidos de socorro judicial. Em 2025, foram registrados 977 processos de recuperação, o maior volume desde 2016, impactando 2.466 CNPJs. Esse movimento de expansão, contudo, não se traduziu em um aumento proporcional de novas falências. Pelo contrário, os pedidos de falência apresentaram queda de 19% em 2025 frente ao ano anterior, totalizando 698 CNPJs atingidos.
A legislação brasileira, regida pela Lei nº 11.101/2005, oferece mecanismos distintos para a gestão de crises. Enquanto a recuperação judicial foca na reorganização sob supervisão do magistrado, a modalidade extrajudicial prioriza a negociação direta com credores. Já a falência, procedimento de liquidação, segue rito próprio para o pagamento de obrigações conforme a ordem de preferência legal.
Grandes grupos e o peso das dívidas bilionárias
A lista de companhias que buscaram proteção judicial em 2026 inclui nomes de peso com passivos que superam a casa dos bilhões. A Raízen, por exemplo, teve plano homologado em julho envolvendo R$ 61,4 bilhões, enquanto a Braskem protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões. Em contrapartida, casos como o da Oi, com passivo de R$ 44 bilhões, avançaram para a falência, confirmada pela Justiça do Rio de Janeiro em agosto de 2026.
Outros setores também enfrentam desafios severos. O Grupo Casas Bahia registrou pedido de recuperação judicial em agosto com dívidas de R$ 17,3 bilhões em créditos sujeitos ao processo, podendo chegar a R$ 28 bilhões no passivo total. No mesmo período, o Grupo Dolly tornou-se alvo de pedido de falência por parte do fisco, com passivo tributário estimado em R$ 15,746 bilhões, evidenciando que a natureza das dívidas e a situação jurídica variam drasticamente entre os grandes players do mercado.