Enquanto o perfil demográfico de Divinópolis aponta para um envelhecimento progressivo de sua população, o cenário eleitoral revela uma tendência oposta entre os mais novos. O contingente de adolescentes de 16 e 17 anos, que possuem o direito ao voto facultativo, registrou uma queda acentuada nas últimas três décadas. O fenômeno ocorre em um momento de expansão do eleitorado geral na cidade, evidenciando um descompasso entre o crescimento populacional e a adesão da juventude ao processo democrático.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que, para o pleito de 2026, Divinópolis contará com 1.103 eleitores menores de 18 anos. Este número representa apenas 0,64% do eleitorado local e 0,45% da população total. Em comparação, o cenário de 1994 apresentava 1.738 adolescentes aptos a votar, o que correspondia a 1,7% dos votantes e 1,1% da população, consolidando uma redução de quase metade do volume absoluto de jovens nas urnas.
Desafios na compreensão da dinâmica institucional
Especialistas apontam que a baixa adesão não decorre apenas de apatia, mas de uma dificuldade estrutural em compreender o funcionamento do sistema político brasileiro. A socióloga e cientista política Alecilda Oliveira observa que há uma confusão frequente sobre as atribuições dos cargos eletivos e o papel dos Três Poderes. Segundo a docente, a falta de clareza sobre as competências de prefeitos, governadores e legisladores gera um distanciamento que desestimula a participação ativa.
A formação educacional, contudo, mostra um perfil de escolaridade elevado entre os jovens que decidem votar. Conforme o TSE, mais de 96% desse grupo alcançou o Ensino Médio, sendo que a grande maioria ainda cursa essa etapa. Apenas uma parcela ínfima é composta por analfabetos, sugerindo que o entrave para o engajamento não está na falta de acesso à educação formal, mas na conexão entre o conteúdo escolar e a prática da cidadania.
Engajamento digital versus participação institucional
O historiador político Fernando Perlatto, diretor do Instituto de Ciências Humanas da UFJF, argumenta que o desinteresse pela política institucional não significa, necessariamente, uma ausência de engajamento político. O especialista destaca que a juventude contemporânea mantém uma presença ativa em redes sociais e coletivos, ainda que essa militância não se converta em votos ou filiações partidárias. O desafio, portanto, seria a transição desse ativismo digital para o sistema representativo.
A exposição a ambientes digitais traz, contudo, riscos significativos. A influência de algoritmos e a disseminação de desinformação criam barreiras para o pensamento crítico. O professor Moacir de Freitas Júnior, da UFU, alerta que a polarização política e a violência verbal nas redes sociais afastam o jovem, que muitas vezes prefere evitar o desgaste de tomar um lado em um ambiente hostil.
Histórico de mobilização e o futuro da democracia
Apesar do recuo atual, a história brasileira é marcada por momentos em que a juventude foi protagonista, como nas campanhas pelas Diretas Já, no movimento dos Caras-pintadas e nas jornadas de 2013. Para Moacir de Freitas Júnior, o afastamento dos adolescentes das urnas representa um risco real ao fortalecimento das instituições. A renovação dos compromissos democráticos é vista como essencial para evitar a fragilização das conquistas obtidas desde a redemocratização.
Para aprofundar o debate sobre o perfil do eleitorado, o g1 publica uma série de reportagens especiais que analisam desde o peso do voto feminino até o impacto das abstenções nas eleições de 2026. A série busca oferecer um diagnóstico preciso sobre como as mudanças demográficas e sociais estão moldando o futuro político da região.